domingo, 21 de janeiro de 2018

Chão




Escolho uma palavra [pequena].
Pode ser pequena,
três ou quatro letras me bastam
para acender a sombra
de um vaga-lume
no coração.

A amplidão dos longes
já não me cabe no peito.
Estende-se para lá das paredes 
de uma casa,
das pás de um moinho;
para lá deste domingo
sem ninhos. 
Sem folhas.

Concentro-me na palavra.
Seguro-a pelos pés,
os cabelos, raízes fundas,
o corpo, corça perseguida,
asas tangidas de nevoeiro,
os braços.
a palavra: chão.
.  
Percorro-a. E pergunto
como pode uma única sílaba
conter em si
tantos labirintos?
Quantas enfermidades 
poderá suportar ainda
sua tez massacrada?
chão: 
areia, areia, areia,
dunas movediças...

e umas gotas de mar
que guardo nos
meus olhos.





3 comentários:

Rogério G.V. Pereira disse...

Para além da palavra
Bela palavra
a tua, essa, a escolhida

Ter um chão
é uma legítima aspiração

uns tem-no
outros não

Graça Pires disse...

Chão: "Percorro-a. E pergunto como pode uma única sílaba conter em si tantos labirintos?"
Magnífico! Que mais acrescentar?
Uma boa semana, minha Amiga.
Um beijo.

Emília Simões disse...

Um poema fabuloso.
Assim se faz poesia com os pés bem assentes no chão.
Beijinhos,
Ailime