terça-feira, 7 de agosto de 2018

À conversa com... Jorge de Sena


A minha terra não é inefável.
A vida da minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.

Jorge de Sena
(Do poema - "Os paraísos artificiais")



Para amenizar a mágoa
que o exílio te causou,
acalmar teu denso desencanto
queria poder dizer-te,
sem ter de fugir à verdade,
que no país que adoecera
de ausências,
já não são artificiais
os paraísos, 

insinuam-se
no remanso de certas horas
estivais de pouca lucidez.
Queria falar-te  
da vida inefável da nossa terra
como se o “inefável”
subitamente dizível…

Queria contrariar-te,
poder provar, à luz de agora,
que são terra [nossa] ainda
as ruas,
os prédios, colinas rendilhadas
erguidas ao alto,
os jardins, naturais e perenes,
as árvores, de um verde puro,
nenhuma ameaça
a pender sobre elas.
Queria dizer-te:
os pardieiros, lá muito longe,
na Pérsia ou na China [sem ironias]
e não aqui,

aqui os cânticos das aves
evadidas das gaiolas nas varandas,
do 3.º esquerdo, do 5.º direito ...
dizer-te que o vento, por vezes,
se põe a dedilhar
o oboé ou a flauta,  
e amena é a música que nos toca.

Porém, querido poeta…
ainda não,
ainda não posso descrever-te
o momento em que a Liberdade
em flor nos revelará a sua cor,
límpida e formosa
como um dia a imaginámos.