A minha terra não é inefável.
A vida da minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.
A vida da minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.
Jorge de Sena
(Do poema - "Os paraísos artificiais")
Para
amenizar a mágoa
que o exílio
te causou,
acalmar teu
denso desencanto
queria poder
dizer-te,
sem ter de fugir à verdade,
sem ter de fugir à verdade,
que no país que adoecera
de
ausências,já não são artificiais
os paraísos,
insinuam-se
no remanso
de certas horas
estivais de
pouca lucidez.
Queria
falar-te
da vida inefável
da nossa terra
como se o
“inefável”
subitamente dizível…
Queria
contrariar-te,
poder
provar, à luz de agora,
que são
terra [nossa] ainda
as ruas,
os prédios,
colinas rendilhadas
erguidas ao
alto,
os jardins,
naturais e perenes,
as árvores,
de um verde puro,
nenhuma
ameaça
a pender
sobre elas.
Queria
dizer-te:
os pardieiros,
lá muito longe,
na Pérsia ou
na China [sem
ironias]
e não aqui,
aqui os
cânticos das aves
evadidas das
gaiolas nas varandas,
do 3.º
esquerdo, do 5.º direito ...
dizer-te que
o vento, por vezes,
se põe a
dedilhar
o oboé ou a
flauta,
e amena é a
música que nos toca.
Porém,
querido poeta…
ainda não,
ainda não
posso descrever-te
o momento em
que a Liberdade
em flor nos
revelará a sua cor,
límpida e formosa
como um dia
a imaginámos.
