Partilho hoje dois pequeno excertos das "palavras" que dei para constarem na antologia - A Minha Palavra/ Antologia de escritos avulsos - que a Poética Edições publicou, (recentemente), em jeito de edição comemorativa dos seus 5 anos.
Idades é a minha palavra. Foi a partir dela que escrevi um pequeno conto sustentado nas memórias de uma cadeira de rodas. Ela, a cadeira, é a narradora.
[...]
As minhas rodas passaram a ser
as suas pernas, calçada acima calçada abaixo. A voz da Mariazinha em fundo a
desbravar nevoeiros, a desmantelar agruras, a inventar risos e rosas, sempre desvelada
no empurrar, no puxar, no levantar, no pousar. Nunca lhe ouvi uma queixa, um desabafo,
uma palavra de irritação. Mulher incansável, aquela! E linda!... Depois, sem que
ninguém esperasse, começou a esquecer-se de si mesma, ficava confusa de um
momento para o outro, perdia coisas e palavras por todo lado e não conseguia
encontrá-las. E não conseguia encontrar-se a si própria dentro do corpo que era o seu. Ameninou-se
ao ponto de esquecer até o movimento das pernas. Assim, passou a ocupar o
espaço vazio, entre os meus braços. E... tivesse uma cadeira de rodas, insignificante
como eu, direito a um coração e esse estaria cheio de trovas de benquerença e
encantamento, mas isso são peixes de outras águas que para aqui não são
chamadas, pertencem ao coração, porquanto não devem ser ditas nem dadas à
escrita.
[...]
A certa altura, sem como nem
porquê, fizeram-me regressar à penumbra da cave onde tenho permanecido na
triste lembrança daquele dia funesto em que, banhada em lamentações, fui trazida de novo ao lugar de inutilidade e de solidão onde, dia a dia, se me oxidam
articulações e tédios, artefacto inútil que sou, sem rumo nas rodas, sem ânimo
nas dobradiças nem brios nos gestos, os sentimentos em franja.
[...]
[...]
Lídia Borges
(Van Gogh, 1888, Girassóis)

2 comentários:
Um bom texto não limita o leitor ao que foi contado. Transporta-o para outros lados. Não deixei de comparar a narradora aos lamentos de tratador(es) de idosos com demência, pagos a valores precários, depois do desfecho (chorado) jazem esquecidos e arrumados, como qualquer cadeira até que novo préstimo seja solicitado... depois de qualquer novo contrato, exercido com a mesma entrega e devoção, o mesmo destino. Conheço um caso, por vezes detenho-me a seguir o carinho, o sorriso e a voz terna e paciente com que vai dizendo "não, não faça isso!"
Fiquei a saber que voltaram a entrar comentários. Têm-me chegado "dicas" de que os mesmos não aparecem. Também os não vejo. Para não causar constrangimentos, prefiro evitá-los. Às vezes, como hoje, esqueço-me...
Gostei da sua leitura, Rogério. Aliás, fica muito perto do que escrevi. A vantagem está em lê-lo em dois pequenos excertos.
Obrigada!
Lídia
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