segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Idades


Partilho hoje dois pequeno excertos das "palavras" que dei para constarem na antologia - A Minha Palavra/ Antologia de escritos avulsos - que a Poética Edições publicou, (recentemente),  em jeito de edição comemorativa dos seus 5 anos.

Idades é a minha palavra. Foi a partir dela que escrevi um pequeno conto sustentado nas memórias de uma cadeira de rodas. Ela, a cadeira, é a narradora.






[...]

As minhas rodas passaram a ser as suas pernas, calçada acima calçada abaixo. A voz da Mariazinha em fundo a desbravar nevoeiros, a desmantelar agruras, a inventar risos e rosas, sempre desvelada no empurrar, no puxar, no levantar, no pousar. Nunca lhe ouvi uma queixa, um desabafo, uma palavra de irritação. Mulher incansável, aquela! E linda!... Depois, sem que ninguém esperasse, começou a esquecer-se de si mesma, ficava confusa de um momento para o outro, perdia coisas e palavras por todo lado e não conseguia encontrá-las. E não conseguia encontrar-se a si própria dentro do corpo que era o seu.  Ameninou-se ao ponto de esquecer até o movimento das pernas. Assim, passou a ocupar o espaço vazio, entre os meus braços. E... tivesse uma cadeira de rodas, insignificante como eu, direito a um coração e esse estaria cheio de trovas de benquerença e encantamento, mas isso são peixes de outras águas que para aqui não são chamadas, pertencem ao coração, porquanto não devem ser ditas nem dadas à escrita.
[...]

A certa altura, sem como nem porquê, fizeram-me regressar à penumbra da cave onde tenho permanecido na triste lembrança daquele dia funesto em que, banhada em lamentações, fui trazida de novo ao lugar de inutilidade e de solidão onde, dia a dia, se me oxidam articulações e tédios, artefacto inútil que sou, sem rumo nas rodas, sem ânimo nas dobradiças nem brios nos gestos, os sentimentos em franja.
          [...]


                                                                                                                        Lídia Borges

  

(Van Gogh, 1888, Girassóis) 






2 comentários:

Rogério G.V. Pereira disse...

Um bom texto não limita o leitor ao que foi contado. Transporta-o para outros lados. Não deixei de comparar a narradora aos lamentos de tratador(es) de idosos com demência, pagos a valores precários, depois do desfecho (chorado) jazem esquecidos e arrumados, como qualquer cadeira até que novo préstimo seja solicitado... depois de qualquer novo contrato, exercido com a mesma entrega e devoção, o mesmo destino. Conheço um caso, por vezes detenho-me a seguir o carinho, o sorriso e a voz terna e paciente com que vai dizendo "não, não faça isso!"

Lídia Borges disse...

Fiquei a saber que voltaram a entrar comentários. Têm-me chegado "dicas" de que os mesmos não aparecem. Também os não vejo. Para não causar constrangimentos, prefiro evitá-los. Às vezes, como hoje, esqueço-me...

Gostei da sua leitura, Rogério. Aliás, fica muito perto do que escrevi. A vantagem está em lê-lo em dois pequenos excertos.
Obrigada!

Lídia