Quando o verão se nos faz longo, querendo
acertar o andar pelos vagares do passado, gosto de pegar num livro, ao acaso, normalmente
da estante reservada à poesia. E, por vezes, acontece que a paisagem da página
em aberto coincide justamente com a paisagem que me falta aos olhos, como se me
esperassem as ilhas (reais ou imaginadas), naquele recanto da casa, cais de
embarque para as mais imprevisíveis viagens.
Ivo Machado, "Animal de Regressos", (201:p.11).
DIVAGAÇÃO
Trago o azul
de melancolia
da tarde em que nasci
da tarde em que nasci
o perfume das maçãs que roubei
na manhã da descoberta
dum navio corsário além da gelosia
trago
instantes dispersos
no azul
primário da poesia.
Ivo Machado

