quarta-feira, 3 de julho de 2024

Embarcação

 


O poema navega

em água de rãs e juncos

leva-me, embarcação, chão movediço 

entre mim e a água das palavras.

Toda a água.

Como se me fosse vedada a comunhão

com a natureza de rãs e juncos.

 

Leva-me o poema, trespassa os sentidos

condena-os à respiração das metáforas,

expulsa-me da minha forma latente 

de rã e junco,

e não reconhece em mim realidade alguma.

 

Rouba-me à água.

Deixa-me suspensa neste deserto branco de papel.

Começa a doer insuportavelmente

a minha presença 

deste lado noturno das palavras.


Lídia Borges