terça-feira, 27 de agosto de 2024

Pensatempo

 




Revolvendo a terra ainda morna, fértil,

mãos desveladas,

cingem o milagre das coisas inomináveis.

Sobem ao adro do encantamento

e proferem a palavra "oferta".

Comovidos, colhemos a generosidade dos solos

e a gratidão faz-se, de súbito, eco da alma.

(Da alma, sim. Pode ela até nem possuir um corpo,

mas voz… essa, eu sei que vive, 

pois que a oiço, nitidamente.)

 

 

Cheira bem

e o outono nem sequer me falou ainda

de cogumelos.

O aroma deve vir do alecrim, das maçãs, dos figos,

sei lá,

da cantoria dos pássaros,

trebelhando, de ramo em ramo,

no meu pensatempo.



Lídia Borges