O sono das árvores
vem rondar-me os sentidos
como cortina de seda.
Reparo que
não sei reproduzir as frases
que folhas e pássaros e brisas
me escrevem por dentro.
Leio-as e posso ser calmo apenas
no poema que não escrevo.
Ter de manchar o branco da página
com os ecos dos ódios
que retumbam pelo
mundo
é o adverso do verso sonhado.
Ensurdecedoras vozes
poluem de morte o ar.
Quem ouvirá ainda os queixumes
de folhas e pássaros e brisas,
no preâmbulo de um outono.
Lídia Borges
