terça-feira, 3 de setembro de 2024

Os Borges

 


Fosse eu poeta e bem poderia ter escrito esses versos, aí em baixo, ou outros de idêntica feição. Fosse poeta, e, tivesse o apelido “Borges”, na minha família, resistido à geração de minha avó paterna, (a quem eu o fui buscar, em Lídia Borges). De facto, meu pai e seus dois irmãos, não herdaram da mãe o sobrenome, mas do pai - Oliveira Marques – como era, e é ainda, usual. Minha avó, sendo mulher e filha única, não logrou levar por diante o “Borges” que com ela se esvaneceu e deixou de constar nas certidões de nascimento, na família. Porém, estas duas sílabas tão simples, ficaram sempre a pairar sobre a minha cabeças, tal a força, a determinação, a coragem, a sabedoria desta avó, minha e única. Nascida em berço de rendas e tafetás, viu-se viúva aos trinta e poucos anos, com três filhos para criar. Valeu-lhe o pecúlio deixado pelo meu avô (que não conheci) e, anos depois, o trabalho de assistente, num consultório médico. A senhora Borges que, segundo parentes próximos contavam, proclamava, anos antes, com a maior convicção do mundo: "uma senhora não sai de casa sozinha." 

Quando o "Borges" que era já parte do meu sangue, passou a ser também parte do nome da “outra em mim” foi como se, de algum modo (inconsciente, claro está) eu quisesse/pudesse contrariar esse:

 

Ténues como se nunca tivessem sido
e alheios aos trâmites da arte,
indecifravelmente fazem parte
do tempo e da terra e do olvido.

Lídia Borges

(Foto: Casamento dos meus avós, 1924)

 ***

 

Os Borges

Bem pouco ou nada sei de meus maiores
portugueses: os Borges, vaga gente
que prossegue em minha carne, obscuramente,
seus hábitos, rigores e temores.
Ténues como se nunca tivessem sido
e alheios aos trâmites da arte,
indecifravelmente fazem parte
do tempo e da terra e do olvido.
Melhor assim. Cumprida a sua faina,
são Portugal, são a famosa gente
que forçou as muralhas do Oriente
e deu-se ao mar e ao outro mar de areia.
São o rei que no místico deserto
perdeu-se e o que jura não estar morto.

Jorge Luís Borges (maio, 2002) O Fazedor, Tradução de Miguel Tamen,

Difel (Difusão editorial,S.A.