As imagens são aves em queda.
Precipitam-se do céu noturno,
densas.
Batem-nos nas pálpebras
para que as abramos.
Deixam penas à deriva, impassíveis,
que nos caem sem estrondo
para dentro do coração.
O mundo parece feito de visibilidades
muito falíveis.
As imagens são girândolas de fogo e cristais quebrados,
safiras luzentes volteando, sôfregas,
que se não fixam em suas cores primárias
para que as vejamos, naturais.
Atingem-nos como súbitos caleidoscópios.
Dir-se-ia que deflagram
para inaugurar a palavra interdita.
Todavia, é uma multidão de sílabas ensandecidas
que vem, desgovernada, lançar o caos
na sensatez obtusa da mão que escreve.
Lídia Borges
