quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Prelúdio


 

As imagens são aves em queda.

Precipitam-se do céu noturno,

densas. 

Batem-nos nas pálpebras 

para que as abramos.

Deixam penas à deriva, impassíveis,

que nos caem sem estrondo

 para dentro do coração.

 

O mundo parece feito de visibilidades

muito falíveis.

As imagens são girândolas de fogo e cristais quebrados,

safiras luzentes volteando, sôfregas,

que se não fixam em suas cores primárias

para que as vejamos, naturais.


Atingem-nos como súbitos caleidoscópios.

Dir-se-ia que deflagram 

para inaugurar a palavra interdita.

Todavia, é uma multidão de sílabas ensandecidas

que vem, desgovernada, lançar o caos 

na sensatez obtusa da mão que escreve.


Lídia Borges

(imagem: Pinterest)