segunda-feira, 14 de outubro de 2024

Sebastião Alba (março 1940 - outubro 2000)

 Fui longe demais dentro de mim




La casa de S. Alba

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[...]

Anteontem apareceu-me lá um garoto (outro) com uma lanterna e uma pistola. Perguntou-me se tinha droga. Apontei-lhe para a garrafa de vinho à cabeceira.

Intimou-me a levantar as mãos e apalpou-me. Não senti medo (aquilo podia ser uma farsa) mas um grande desconforto, pensando “que é que este garoto vai fazer?”

Varreu com o feixe de luz todos os recantos. Eu continuava a ouvir um concerto para piano e orquestra, agradecendo a Mozart a calma que me inculcava. O garoto saiu. Então desliguei o rádio. O concerto n.º 20 já me estava a preparar para aquilo. Os diabos me levem se é superstição. Esse concerto de Mozart é de uma placidez e amargura que sempre que o oiço me sinto um anão de circo.

 

Sebastião Alba, Albas (2003,pag.159) edições quasi.