Fui longe demais dentro de mim
La casa de S. Alba
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Anteontem apareceu-me lá um
garoto (outro) com uma lanterna e uma pistola. Perguntou-me se tinha droga.
Apontei-lhe para a garrafa de vinho à cabeceira.
Intimou-me a levantar as
mãos e apalpou-me. Não senti medo (aquilo podia ser uma farsa) mas um grande
desconforto, pensando “que é que este garoto vai fazer?”
Varreu com o feixe de luz
todos os recantos. Eu continuava a ouvir um concerto para piano e orquestra,
agradecendo a Mozart a calma que me inculcava. O garoto saiu. Então desliguei o
rádio. O concerto n.º 20 já me estava a preparar para aquilo. Os diabos me
levem se é superstição. Esse concerto de Mozart é de uma placidez e amargura que
sempre que o oiço me sinto um anão de circo.
Sebastião Alba, Albas (2003,pag.159)
edições quasi.
