Escrevo em blocos de notas. Quando algum fica cheio costumo alimentar com ele o fogo da lareira, se é inverno. Mas não pensem que é um processo fácil. Não é. Primeiro ponho-me a folheá-lo na esperança de não encontrar nada de jeito que me leve a retroceder na minha intenção de incendiária. Encontro quase sempre frases, versos, fragmentos de poemas que não "arrumei" nos ficheiros devidos. Hoje, entre outras minudências, isto:
Garças (organigrama)
I Andamento - Manhã
Quando - aberta a janela - o silêncio perante a maravilha de estar vivo
ou
a insubordinação das imagens pela impossibilidade da perfeição.
II Andamento -Tarde
Quando - do lado de dentro das paredes - as mãos derrubando os muros brancos da página, pedra a pedra
ou
a música de versos intangíveis, somente.
III Andamento - Noite
Quando
os sonhos, árvores imponentes
ou
do solo, a sombra de passos por cumprir.
E, logo depois, uma citação de Mário de Sá Carneiro em carta a Fernando Pessoa de 21 de Janeiro de 1913. (Sá Carneiro, Mário de.2003. Correspondência com Fernando Pessoa, Relógio d'Água):
É curiosa esta função do cérebro-escritor. De tudo quanto em si descobre e pensa faz novelas ou poesia. Mais feliz que os outros para quem as horas de meditação sobre si próprio são horas perdidas. Para nós, elas são ganhas. Menos nobres só. O desperdício é nobre. O interesse vil. E o artista é mais interesseiro do que o judeu. Tudo - cenários, pensamentos, dores, alegrias - se lhe transforma em matéria de arte!... Ganha sempre!
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O bloco cheio?!
Não. Ainda não o queimei.
