quinta-feira, 25 de abril de 2019

Evocações

(Foto: João Cutileiro)

"Ao cabo de longas décadas de ditadura minuciosa, a súbita mudança foi uma festa incrível, uma intensa e confiante alegria sem dúvidas nem sombras. Durante alguns dias vivi em estado de levitação, sem sono, sem fome, sem cansaço, sem peso. Na rua todas as pessoas sorriam, ninguém empurrava. Parecia que o mal tinha acabado. Surgiam pequenos grupos de gente muito nova que, em diagonal, atravessava as praças com uma bandeira à frente, correndo em triângulo como um bando de aves migratórias. Outros grupos pareciam o corpo de baile que, aéreo e leve, atravessa o palco. Não era só a política que tinha mudado, era, parecia-nos, a vida que tinha regressado à sua verdade. Parecia-nos que se cumpria o sonho de Rimbaud e a poesia se tinha tornado interior à vida quotidiana”.

Sophia de Mello Breyner Andresen, “O cego”.


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“Aqui há dois anos aconteceu-me uma história curiosa. Uma das minhas amigas, Sophia Andresen, é deputada socialista em Portugal e escritora, também. Pediu-me ela que fizesse um cartaz para festejar o 25 de Abril, ‘Faz o que te apetecer — disse-me ela — a multidão, a rua, o que quiseres, mas é urgente.’
Reflecti, e pus mãos à obra, deixando-me guiar pelo que naturalmente me ia vindo. Quando acabei, olhei para o que tinha feito e fiquei muito inquieta: parecia um vitral, via-se uma igreja e umas ruínas. ‘Neste momento lá em Portugal — pensei eu — a política tem prioridade, vão dizer que fiz uma pintura religiosa. Não pode ser, tenho que projectar outra coisa’ e comecei a traçar uma rua antiga de Lisboa com uma multidão e cravos vermelhos. Quando a minha amiga voltou, escolheu o primeiro desenho (acabou por levar ambos). Perguntei-lhe: ‘Não irão dizer que é uma beatice? — Não — disse ela —, foi ali mesmo que tudo se passou.’ Lembrei-me então de que ao ler as notícias de Portugal sempre imaginava as manifestações descritas, diante de uma igreja que eu conhecia muito bem e da qual gostava, mas que esquecera por completo enquanto trabalhava. E no entanto tenho boa memória. O segundo cartaz era uma rua muito próxima dessa igreja, mas não fora ela o centro de tudo o que se passara e sim a tal ruína gótica, o Convento do Carmo. Como tudo isto é misterioso, não é verdade?”
(Anne Philipe, “O Fulgor da Luz. Conversas com Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes”)



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Ao Dr. Carlos Mendes de Sousa http://cehum.ilch.uminho.pt/researchers/29, meu digníssimo professor (2009/2011), no Mestrado em Teoria da Literatura/ Estudos Lusófonos, na Universidade do Minho, responsável pela Organização da edição da Obra Poética, de Sophia de Mello Breyner Andresen, Lisboa, Assírio & Alvim, 2015, agradeço a partilha destas pérolas "escondidas".