Gosto destas tardes de domingo, infindáveis, à hora em que o sol se queda do lado de fora, sem se atrever a invadir a sala, cuja luz se amplifica natural e branda, uma luminosidade justa ao ócio que subjaz ao ato de pensar. É a hora em que a casa se recolhe, depois do almoço, do café e das conversas vagarosas dos dias sem relógios.
Leio uma frase aqui, um poema acolá. Gosto de procurar os livros mais remotos e de tirá-los das estantes como quem pede desculpa pela ausência. Dicionários são uma festa! Há muito que não abria o de Símbolos, de Jean Chevalier Alain Gheerbrant. Perco-me em leituras descontinuadas, observo como os símbolos estão presentes em todas as artes e nas técnicas que delas resultam e se cruzam connosco a todo o momento. Aqui, não é a uma lista de definições lexicais a que temos acesso, mas a uma visão que, por natureza, pretende romper com os cânones estabelecidos e expor interpretações simbólicas sem que, contudo, as palavras sejam capazes de exprimir todo o mistério que cada uma delas guarda em si. Segundo Georges Gurbitch, os símbolos revelam velando e encobrem revelando. Não serão por isso os símbolos capazes de explicar todos os mistérios do mundo, da humanidade, da vida, mas evocam as relações de imagens, ideias, emoções, crenças que cercam as coisas passíveis de leituras diferenciadas. A imaginação parece ter deixado de ser “a louca da casa” e a par da razão torna-se inspiração e progresso, abrindo o espírito para o desconhecido e para o infinito.
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Entrada
- TIJOLO
Na
página 646, fica-se a saber que, segundo a cosmogénese acádia, existe um deus
do tijolo. Imaginem!
…Ele criou as árvores…
Ele colocou um tijolo
Ele fabricou o molde do tijolo.
Ele construiu a casa,
Ele edificou a cidade
(SOUN,146-147)
“O
deus do tijolo chama-se Kulla; tinha sido criado de uma pitada de argila, tirada
do Apso, o rio primordial, e era encarregado da restauração dos tempos.
Pondo
de lado o seu uso pratico e histórico, ou talvez por causa dessa mesma
utilização, o tijolo simboliza aqui a passagem da humanidade para a vida
sedentária e a origem da urbanização: casa, cidade, templo. Para realizar uma
tal revolução social, foi preciso uma intervenção divina, um novo acto criador.
O
tijolo é, portanto, um dom dos deuses. É o símbolo do homem fixado na sua casa,
no seu solo, com a sua família, organizando-se em aldeias ou cidades, com os
seus lugares de culto.”
