TODO O TRABALHO TODA A
PENA, de Vergílio Alberto
Vieira, editado em 2016, pela "Crescente Branco", não é só um livro,
mas antes 497 páginas que reúnem poemas escolhidos de vinte e um
títulos anteriores, desde A idade do
fogo (1980) até Halo y
tangência, compilação que recebeu como título um verso de Camões, como
reverência e tributo, (pelo menos, assim eu o entendo). Esta literatura radicada na literatura é uma das
marcas do autor que faz da memória de um colectivo o leito privilegiado do seu caudal poético.
Mas não apenas esta vertente o identifica, também a tradição oriental (nipónica
e chinesa) em suas formas breves e condensadas, bem como o misticismo de poetas
como S. João da Cruz, por exemplo, que se encontram bem patentes na sua obra de matriz
clássica. Fiquemo-nos, por agora, pelas "Efígies" homenageadas:
Re(l)vendo,
(página 220 a 223):
EFÍGIES
MIGUEL TORGA
Fulgor de pedra
morta
arde
onde a cegueira
dos dedos
principia
JOSÉ GOMES FERREIRA
Sem outro adeus
como Ulysses avistou
por Odeceixe
já cego
o mar
um dia
CARLOS DE OLIVEIRA
Com a noite
em sonhos voltam
à Gândara
o assombro das águas
o augúrio da voz
VERGÍLIO FERREIRA
Entre veredas
de água
à terra
desce o corpo
branco
de cal
CORSINO FORTES
De ilha em ilha
violas de terra
dobram
para sempre
o coração
JOÃO CABRAL DE MELO NETO
Escrevendo escre
vendo mal ch
ama à arena a cor
nada que
o destino traz
consigo
ALEXANDRE O'NEILL
por tudo & nada
ter dito para inglês
ver em português
caiu em si
foi de vez
DAVID MOURÃO-FEREEIRA
Regressa com a noite
à linha de água
essa nudez
que ao engano da luz
lanço a lanço
se perdeu
EUGÉNIO DE ANDRADE
Da luz refém
como Antinoos cada noite
assim chorou
em Delphos
pelo demorado dia
Vergílio Alberto Vieira (2016), Todo o trabalho toda a pena, Crescente Branco.
