domingo, 21 de julho de 2019

"TODO O TRABALHO TODA A PENA"



         

TODO O TRABALHO TODA A PENA, de Vergílio Alberto Vieira, editado em 2016, pela "Crescente Branco", não é só um livro, mas antes 497 páginas que reúnem poemas escolhidos de vinte e um títulos anteriores, desde A idade do fogo (1980) até Halo y tangência, compilação que recebeu como título um verso de Camões, como reverência e tributo, (pelo menos, assim eu o entendo). Esta literatura radicada na literatura é uma das marcas do autor que faz da memória de um colectivo o leito privilegiado do seu caudal poético. Mas não apenas esta vertente o identifica, também a tradição oriental (nipónica e chinesa) em suas formas breves e condensadas, bem como o misticismo de poetas como S. João da Cruz, por exemplo, que se encontram bem patentes na sua obra de matriz clássica. Fiquemo-nos, por agora, pelas "Efígies" homenageadas:


Re(l)vendo, (página 220 a 223):


 EFÍGIES


MIGUEL TORGA

Fulgor de pedra 
morta

arde

onde a cegueira 
dos dedos

principia

JOSÉ GOMES FERREIRA

Sem outro adeus

como Ulysses avistou
por Odeceixe

já cego 
o mar

um dia

CARLOS DE OLIVEIRA

Com a noite

em sonhos voltam 
à Gândara

o assombro das águas

o augúrio da voz

VERGÍLIO FERREIRA

Entre veredas 
de água

à terra
desce o corpo

branco

de cal

CORSINO FORTES

De  ilha em ilha

violas de terra
dobram

para sempre

o coração

JOÃO CABRAL DE MELO NETO

Escrevendo escre
vendo mal ch
ama à arena a cor
nada que
o destino traz
consigo

ALEXANDRE O'NEILL

por tudo & nada
ter dito para inglês 
ver em português 
caiu em si
foi de vez

DAVID MOURÃO-FEREEIRA

Regressa com a noite
à linha de água

essa nudez

que ao engano da luz
lanço a lanço

se perdeu

EUGÉNIO DE ANDRADE

Da luz refém

como Antinoos cada noite
assim chorou

em Delphos

pelo demorado dia




Vergílio Alberto Vieira (2016), Todo o trabalho toda a pena, Crescente Branco.