sábado, 20 de julho de 2019

Distorção


   
Pinta-se uma tela com motivos simples sem outra pretensão que não a de dar uso aos pincéis e imitar a realidade. Acrescenta-se-lhe por vezes a cor de um sentimento, a forma de uma emoção, o relevo de um olhar para que, ao criado, possa ser atribuído um tom de individualidade que o identifique entre os pares. Depois pega-se no trabalho produzido e coloca-se num Distorcedor. Trata-se de um instrumento que a tecnologia desenvolveu para fazer de uma imagem vulgar, uma obra de arte cheia de metáforas originais de contornos mais ou menos inesperados que, num passe de mágica, enchem os olhos aos observadores. Num ápice, o que levou largas horas a elaborar, diminui, perde o brilho e desaparece no confronto com a nova "obra". O mais irritante é ver que a distorção se sobrepõe largamente ao genuíno da matriz, em questões fundamentais como a criatividade, a perfeição e a beleza. 

Contudo, sem o original, o Distorcedor não teria matéria útil para deformar e engordar o seu ego. É quanto sobra de razão e de alento.



Lídia Borges
(pintura de minha autoria, óleo sobre tela)