sexta-feira, 21 de agosto de 2020

O BAIRRO DOS POBRES

(imagem: pesquisa Google)

de: Histórias dos miúdos de ontem para os miúdos de hoje


Quando o pai deixou as instalações acanhadas da fábrica velha, na rua de Santo André, e passou a trabalhar na fábrica nova, mudámo-nos para a casa na mesma localidade. O pai não seria assim obrigado a percorrer todos os dias os quatro ou cinco quilómetros que separavam a fábrica nova na aldeia da nossa casa na cidade. É que, naquele tempo, os quatro ou cinco quilómetros eram muito, muito mais compridos do que o são hoje. 

Mudámo-nos então para a CASA, ainda hoje a nossa casa, intacta, silenciosa e fechada aos sons do presente, onde haveríamos de crescer, com largas temporadas passadas na cidade, com a avó, quando os estudos assim o determinaram). 

Só quando tivemos de ir para a escola, na aldeia, (onde eu faria a terceira e quarta classes) é que ficámos a saber da existência do Bairro dos Pobres.

Nós tínhamos medo dos meninos e das meninas do Bairro dos Pobres porque eram sujos, atrevidos e muito mal-educados, (como diziam quase todos), e na sala de aulas, eles, os meninos e as meninas do Bairro dos Pobres, ficavam nas carteiras do fundo porque nunca sabiam a lição e tinham piolhos.

Nós ficávamos à frente porque sabíamos sempre a lição e usávamos laços a atar as tranças. O meu irmão só sabia a lição, ele não usava laços porque não tinha tranças. 

 O Bairro dos Pobres não nos dizia nada para além do nome de um lugar que ficava num dos extremos da aldeia, onde nunca tínhamos ido, mas imaginávamos ajudados por tudo o que íamos ouvindo: um amontoavam de casebres de pedra escura, sombrios, todos iguais a que se chegava apenas por caminhos de cabras.

Só mais tarde, haveríamos de compreender o verdadeiro significado que o Bairro dos Pobres carregava em si.

 Muito antes disso, aconteceu um episódio que nos fez perder completamente o medo dos meninos e das meninas do Bairro dos Pobres. Foi quando pudemos ver, em nossa casa, com os nossos próprios olhos, que um banho, um beijo, uma fatia de pão com marmelada, um copo de leite em pó, era quanto bastava para eles ficarem iguaizinhos a nós que de ricos pouco ou nada tínhamos.


Lídia Borges, uma das cinco pequenas histórias de -  Histórias dos miúdos de ontem para os miúdos de hoje. Inédito.

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Só mais uma pequena achega  para todos [nós]: não permitamos que o mundo se transforme num imenso Bairro dos Pobres.