(imagem: pesquisa Google)
de: Histórias dos miúdos de ontem para os miúdos de hojeQuando o pai deixou as instalações acanhadas da fábrica velha, na rua de Santo André, e passou a trabalhar na fábrica nova, mudámo-nos para a casa na mesma localidade. O pai não seria assim obrigado a percorrer todos os dias os quatro ou cinco quilómetros que separavam a fábrica nova na aldeia da nossa casa na cidade. É que, naquele tempo, os quatro ou cinco quilómetros eram muito, muito mais compridos do que o são hoje.
Mudámo-nos então para a CASA, ainda hoje a nossa casa, intacta, silenciosa e fechada aos sons do presente, onde haveríamos de crescer, com largas temporadas passadas na cidade, com a avó, quando os estudos assim o determinaram).
Só quando tivemos de ir para a escola, na aldeia, (onde eu faria a terceira e quarta classes) é que ficámos a saber da existência do Bairro dos Pobres.
Nós
tínhamos medo dos meninos e das meninas do Bairro dos Pobres porque eram
sujos, atrevidos e muito mal-educados, (como diziam quase todos), e na sala de aulas,
eles, os meninos e as meninas do Bairro dos Pobres, ficavam nas carteiras do
fundo porque nunca sabiam a lição e tinham piolhos.
Nós
ficávamos à frente porque sabíamos sempre a lição e usávamos laços a atar as
tranças. O meu irmão só sabia a lição, ele não usava laços porque não tinha tranças.
Só
mais tarde, haveríamos de compreender o verdadeiro significado que o Bairro
dos Pobres carregava em si.
Lídia Borges, uma das cinco pequenas histórias de - Histórias dos miúdos de ontem para os miúdos de hoje. Inédito.
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Só mais uma pequena achega para todos [nós]: não permitamos que o mundo se transforme num imenso Bairro dos Pobres.
