Linhos de outras camas, de outras mesas,
rendas, ponto
por ponto, tangendo tardes de eternidade,
álbuns, o relógio de bolso
sobre o veludo encarnado do estojo
um isqueiro de
oiro (ou dourado, apenas?)
Brincos que não
se usam mais
a escova o
pente e o espelho de prata
e, um por um, os gestos
antigos de os manusear.
Chega-me esses ganchos, filha.
Era agora o assim do tempo todo condensado
no lugar dos objetos de estimar,
coisas que nos falam
pelas pessoas nossas que já não nos podem falar.
Um ventinho súbito vem entreabrir a porta azul,
queixumes chiando nas dobradiças enferrujadas
gerânios pálidos a enlaçarem o gradeado do varandim
a delicadeza da gipsófila, a cair miudinha, gota a gota
como neve de verão na paisagem, ao fundo.
Não ter ciência uma para lá d'Isto
e Isto ser tudo o que de mim deve constar
nos cartões legais de identificação.
Mais palavra menos palavra.
Lídia Borges
