domingo, 24 de julho de 2022

Mais palavra menos palavra

 (Rio Cávado, foto de minha autoria)


Linhos de outras camas, de outras mesas,

rendas, ponto por ponto, tangendo tardes de eternidade,

álbuns, o relógio de bolso 

sobre o veludo encarnado do estojo

um isqueiro de oiro (ou dourado, apenas?)

Brincos que não se usam mais

a escova o pente e o espelho de prata

e, um por um, os gestos antigos de os manusear.

Chega-me esses ganchos, filha.


Era agora o assim do tempo todo condensado

no lugar dos objetos de estimar,

coisas que nos falam  

pelas pessoas nossas que já não nos podem falar.

 

Um ventinho súbito vem entreabrir a porta azul,

queixumes chiando nas dobradiças enferrujadas

gerânios pálidos a enlaçarem o gradeado do varandim

a delicadeza da gipsófila, a cair miudinha, gota a gota

como neve de verão na paisagem, ao fundo.

 

Não ter ciência uma para lá d'Isto

e Isto ser tudo o que de mim deve constar

nos cartões legais de identificação.

Mais palavra menos palavra.


Lídia Borges