O Monge Negro (conto)
Que felizes foram Buda, Maomé e Shakespeare por
não terem tido parentes solícitos que os curasse do seu êxtase e inspiração! –
Exclamou Kovrin – Se Maomé houvesse ingerido brometo de potássio para os
nervos, trabalhado apenas duas horas por dia e bebido leite, esse homem
extraordinário nada mais teria deixado atrás de si do que o seu cão. Os
parentes solícitos e os médicos não fazem outra coisa senão tornar a humanidade
estúpida. Tempos virão em que a mediocridade será considerada génio e em que a
humanidade acabará por perecer. Se vocês soubessem – prosseguiu Kovrin com
insolência, - se vocês soubessem como vos estou grato!
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Detenho-me nestas leituras de verão que vão tornando este agosto mais rico de imagens e ideias sempre novas, sempre outras. Neste O Monge Negro, o narrador conta, falando do autor e quem lê pode até fingir que não entende. Contudo, o texto é uma clara explanação da vida de A. Tchékhov.
Andrei Kovrin, um professor e escritor após ter sofrido um esgotamento nervoso, acaba por se transformar num esquizofrénico feliz que, aceitando a sua loucura, convive alegremente com a visão de um monge com quem conversa, sempre que se sente mais ansioso, menos seguro.
«Trazia a cabeça grisalha a descoberto, vestia de negro e vinha descalço como um mendigo».
A figura, reconhecida pelo protagonista, em todos os momentos da narrativa, como uma miragem, um espectro, faz com que o mesmo acredite que é um génio, um ser distinto dos outros, um eleito. - «Sim, és um daqueles seres raros, que podem, com justiça, ser chamados eleitos de Deus. Tu serves a eterna verdade […] Dedicas tudo ao racional e ao Belo, ou seja, ao eterno.»
A verdade é que o autor se revela de facto um génio da arte de contar quando, podendo escrever uma autobiografia, (o que implicava naturalmente a exposição da sua vida privada e as suas ideias íntimas, o que não estaria nos seus planos) faz surgir um personagem - Andrei Kovin - que reúne em si muitas das características reais do seu criador. Em O Monge Negro o recurso narrativo usado por Tchekhov (retomado, depois, vezes sem conta, por muitos autores) torna as suas opiniões pessoais e pensamentos genuínos mais aceitáveis e credíveis, uma vez que os insere na problemática da loucura, atenuando deste modo a possibilidade de más interpretações passíveis de assimilação, a partir deste conto, da natureza introspetiva, crítica e provocadora que o reveste.
Ademais, a afirmação do Eu como um ser genial e digno de se manter alheio às banalidades humanas bem podia ser entendida como uma espécie de megalomania, a lembrar a interpretação feita à obra de Nietzsche - Ecce Homo - que fez com que seus contemporâneos a recebessem como uma inequívoca (?) prova de loucura.
Lídia Borges
