Ainda agora acordei e, mal abro as portadas, dou pelo domingo a lançar seus passos trôpegos, debaixo de cerradas cortinas de água. Vem encharcado e de mau humor, o domingo. Vê-se logo pela agressividade do vento nas folhas da palmeira encostada à varanda. Um vento em fúria que sopra contra mim, e me devolve ao rosto a penumbra dos olhos.
Penso, por instantes, que deveria,
talvez, ter tratado dela, da palmeira, no final do verão, como sempre se faz, nas casas e à volta delas, para prevenir danos e agastamentos no longo inverno.
Porém, ela é, nos meses de canícula, tão cheia de sombra e de sossegos, tão
cheia de cantos e afagos que, pensar em abatê-la, é quase uma heresia.
Agora que janeiro treme e brame, ela é tão-só
uma ávida sugadora de luz e de ânimo, de paz e de claridades mansas. Leva a
atmosfera do quarto para lugares de húmus e abatimento que invadem o meu dizer
e o enchem de inusitadas ausências. Que saberá ela deste ser em mim, que a incrimina levianamente de culpas inculpadas. Que diria se pudesse defender-se? A inclinação dos
ventos quebra o verso, sufoca os grafemas de Sol. Preciso de um grande
esforço de concentração para encontrar, dentro de mim, um pátio onde a saudade me fale de um velho desenho do futuro.
Lídia Borges
