domingo, 9 de fevereiro de 2025

Coisas belas

 



 

 É uma poeta amadora. Por que não profissional?

Porque só um amador é profissional na arte de amar (as palavras).

(Lídia Borges, nos bastidores dos bastidores)

 

O convite chegou há algum tempo. Embora ultimamente tenha prescindido de assistir ou participar em eventos públicos, considerei que este, pela sua natureza “pedagógica" teria de aceitar. Sempre que o público jovem é o alvo preferencial das ações, entendo ser meu dever colaborar, cumprindo assim um compromisso assumido um dia, quando, pouco mais que menina, me formei professora.

Trata-se de um musical baseado no Cats de Andrew Lloyd Webber e junta ilustres poetas/escritores da Literatura Portuguesa. Os Literatos, espetáculo da responsabilidade da Escola Artística do Conservatório de Música, com textos de Adriana Moreira e de Hugo Direito Dias, encenação de Hugo Direito Dias, estreou no dia 7 de fevereiro na emblemática sala principal do Theatro Circo, em Braga.

Surpreendentemente, vejo-me incluída neste cânone de luxo de gatos-poetas/escritores  que vai de Camões a Sophia, de Florbela Espanca  a Agustina Bessa-Luís, passando por Cesariny e O’Neil, entre outros. É um "Olimpo" onde me sinto não mais que uma mera gatita-aprendiz.

Pedem-me que chegue um pouco antes da hora do início da apresentação para que possa descer aos bastidores e aí, elenco, coro e bailarinos, terem a possibilidade de me conhecer, pessoalmente. De súbito fico rodeada de gatos, os mais letrados e excêntricos gatos de sempre. Os figurinos exuberantes e a caracterização (fantástica) não me deixam perceber as expressões faciais dos jovens, mas sinto o fervilhar das emoções que os tomam, tão perto estão de entrar em cena. Dirijo-lhes umas palavras de incentivo. Alguns pedem-me que identifique o personagem que representam. Peço-lhes versos que me encaminhem.

A Marisa Quintas/Lídia Borges, abeira-se de mim. É cheia de simplicidade e delicadeza, sempre a passar as patitas pelas orelhas espetadas. Mais tarde, no palco, linda, a voz colocada e segura a contracenar com Maria Ondina Braga, entre viagens reais e viagens sonhadas. – Sou Maria Ondina Braga. – Lídia Borges, uma sua conterrânea. Abraçam-se. As duas bracarenses de nascimento, de alma, como que a lembrarem: santos da casa também podem fazer milagres.

A hora esperada chega depressa. Após meses de investigação, estudo, preparação, ensaios, estão ansiosos, mas felizes.

Penso em Sophia, no seu poema "Biografia", em Mar Novo - "Odiei o que era fácil".


Maravilhoso, o espetáculo! Os jovens artistas revelam um profissionalismo surpreendente. De resto, cenografia e caracterização, figurinos, orquestração, vozes, composição coreográfica sem mácula. Quadros absolutamente poéticos, em que as marcas mais significativas da obra de cada poeta/escritor, seus tiques e manias emergem, trazendo à superfície a fruição e a magia que este tipo de espetáculo exige. Justificado todo o interesse que a cidade revelou ao esgotar a lotação, na primeira hora de bilheteira aberta, para os dois dias de apresentação.

Felicito todo o grupo, sem exceção, pela excelência deste Musical. Deixo uma palavra especial de admiração e agradecimento ao Hugo Direito Dias e à Adriana Moreira pela capacidade que possuem de motivar os jovens para a música, a poesia, o teatro, a dança, o canto, para as artes em geral que favorecem a capacidade de apreender o mundo pelo lado da Sensibilidade, sem fugir do Difícil ainda que isso implique esforço, busca constante, dedicação, disciplina, paixão pelo Belo num mundo cada vez mais fascinado pelo Feio.

 

Lídia Borges