terça-feira, 18 de março de 2025

Epistolar




 I

Com que então já não é tempo de cartas?

Que pena! Agora que tenho a tinta,

A caneta e o mata-borrão

Já não é tempo de cartas, então?

 

O envelope imaculado,

Uma folha finíssima, pautada,

Da palavra apurado o estilo

E até um selo devoto a Camilo.

 

Que pena! Ademais, 

É difícil obter a morada

Dos amigos reais,

Destinatários quiçá interessados.

E mal sabemos onde moram

Os amigos inventados.


II

 

Carta extraviada

 


Meu caro senhor,

Soube de fonte insegura

(Como inseguras, todas as fontes)

Que a poesia atravessou pontes

E andou por aí

Fermosa e segura, qual Leonor,

A semear antigas trovas de amor

A ver se vingavam nos solos

Estrumados de sangue e dor.

 

Contudo, meu caro senhor,

Ouve-se agora um certo rumor:

A Poesia está de partida,

Sem dó nem palavra de despedida.

Ir-se, assim, mesmo sabendo ser ela

A própria vida, gémea da primavera.

 

Nesta missiva,  perdida do endereço

Queria contar-lhe só isto, caro senhor.

Receba o meu abraço, o meu apreço,

E, se a Poesia consigo se cruzar,

Seria grande favor pedir-lhe para ficar.

 

Lídia Borges

(18/03/2025)