domingo, 15 de junho de 2025

Fábula

 


O desejo…

pois claro… o desejo podia dizer-se

- aniquilação do silêncio –

E a partir daí alcançava-se outra dimensão,

outra visão do instante

em que o instante, sem que se soubesse,

dissesse de si, fábula eminentemente feliz.

E, dentro dela, bandos de crianças pairassem

de cor em cor, de flor em flor

de árvore em árvore

no brilho das folhas baloiçando

entre o sol e a sombra.

Sol ternura, só

sombra, frescura, apenas.

 

Porém, o silêncio, está carregado

de palavras anteriores.

Viciou-se no vício da devastação e das naftalinas

e a fábula é, a cada momento,

o retorno às ruínas.

Pouco a pouco

a embriaguez libertadora do poema

retoma o pé


e… afunda-se.


Lídia Borges (inédito)

Pintura: s/ ind. autoria (Pinterest)