domingo, 1 de junho de 2025

São pedras

 Poema, na página 74, do meu livro Baile de Cítaras, editado em 2015 pela Poética Edições.



São pedras

Por cima desta faixa de cinza
haverá poeta capaz
de construir um jardim
chamar as crianças e entregar-lho? 

Como desenhar um arco-íris
do terror à lágrima
num céu sempre noturno
riscado por bombas
em lugar de estrelas

Refugiadas nas pupilas
das crianças mortas
estrelas gelam
São pedras

E as pedras armas
e as armas bombas
e as bombas ódios
e os ódios
estilhaços nos olhos dilatados
das crianças mortas

Haverá poeta capaz
de plantar uma árvore
no peito dos homens
chamar as aves e entregar-lha?

Haverá ave
capaz de cantar ainda
dentro do coração inorgânico
dos senhores da guerra?


Lídia Borges