sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Sem Título

 


Deve andar por aí à deriva um poema

de sílabas soletradas vagamente

na raiz de vozes ciosas. 

É estranho estar a escutá-las

deste lado do espelho pela primeira vez,

observá-las numa perspectiva alheia,

vê-las numa forma geométrica aberrante,

que se desfigura e se afigura,

uma dança de delírios e ângulos de visão 

a dar para o real, nitidamente.

Um poema que se aproxima

de nossos brancos, de nossos azuis

de nossas árvores e frutos,

 pedras preciosas atravessadas de luz,

alucinações e imagens tangíveis...

a cisão nunca foi tão eminente.

É esse o poema que buscamos no fim das imagens 

quando as mãos se inquietam à entrada da palavra sóbria,

e penetram o nevoeiro, semelhante ao silvo dos navios,

que se vai diluindo demoradamente 

nas dobras do verso.

 


Lídia Borges (inédito)