Deve andar por aí à deriva um poema
de sílabas soletradas vagamente
na raiz de vozes ciosas.
É estranho estar a escutá-las
deste lado do espelho pela primeira vez,
observá-las numa perspectiva alheia,
vê-las numa forma geométrica aberrante,
que se desfigura e se afigura,
uma dança de delírios e ângulos de visão
a dar para o real, nitidamente.
Um poema que se aproxima
de nossos brancos, de nossos azuis
de nossas árvores e frutos,
pedras preciosas atravessadas de luz,
alucinações e imagens tangíveis...
a cisão nunca foi tão eminente.
É esse o poema que buscamos no fim das imagens
quando as mãos se inquietam à entrada da palavra sóbria,
e penetram o nevoeiro, semelhante ao silvo dos navios,
que se vai diluindo demoradamente
nas dobras do verso.
