A Sebastião Alba (11/03/1940 -14/10/2004)
Um franciscano a quem
pedi guarida por uma noite […] - “Há 17 anos que vivia ali; não se lembrava de
terem acolhido alguém.”
[Fechou
imediatamente a porta …]
Desci a escadaria pensando em S. Francisco de Assis. E fui dormir de novo no meu leito de fetos, 4.º patamar.
Tenho lá uma boa manta e um melro. Há uma torneira
no topo da escadaria, e posso renovar-lhe a água todas as manhãs.
Sebastião Alba (2003: pág.65), Albas.
Passo junto à capelinha de Santo Adrião.
O Santo e o Poeta dividem a morada entre
si
em partes desiguais.
O Santo no interior não tem quem, por
ele,
abra a porta ao Poeta, no exterior.
Sobretudo nas noites mais frias e longas
o Santo desespera por uma mão generosa
que traga para junto de si o Poeta
e seus lúcidos devaneios.
Passo junto à capelinha de Santo Adrião
e parece-me ver ainda no alpendre,
deitado no empedrado,
o Poeta sonolento enrolado numa manta
sobre uma cama de fetos.
O melro do costume virá despertá-lo às
primeiras albas do dia.
Por agora, chega-me de mansinho, não sei
de onde,
o som remoto e rouco de um rádio a
pilhas.
É assim por vezes quando ali passo, a
caminho de casa.
Não tenho dúvidas, é o Concerto para
piano, n.º 21 de Mozart:
a placidez, a harmonia, o encantamento,
quase dor.
Ali está o Poeta todo ele Humanidade,
sob o halo da lua.
Absorvido, maravilhado, impregnado de
uma inteligência comovida
que enternece.
Ali está o Poeta de pé diante da sua
errância anuída,
tomado de uma ternura sem fim,
sem vaidade sem ódios nem rancores.
Ali está o Poeta insubmisso sapiente
livre,
a defender da vida apenas o que da vida
é verdadeiramente defensável.
Lídia Borges (25/09/2025)