quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Sebastião Alba (I)

 

Capela de Santo Adrião - Braga


A Sebastião Alba  (11/03/1940 -14/10/2004)

 

Um franciscano a quem pedi guarida por uma noite […] - “Há 17 anos que vivia ali; não se lembrava de terem acolhido alguém.”

[Fechou imediatamente a porta …]

Desci a escadaria pensando em S. Francisco de Assis. E fui dormir de novo no meu leito de fetos, 4.º patamar. 

Tenho lá uma boa manta e um melro. Há uma torneira no topo da escadaria, e posso renovar-lhe a água todas as manhãs.

 

Sebastião Alba (2003: pág.65), Albas.

 

 

 

Passo junto à capelinha de Santo Adrião.

O Santo e o Poeta dividem a morada entre si

em partes desiguais.

O Santo no interior não tem quem, por ele,

abra a porta ao Poeta, no exterior.

Sobretudo nas noites mais frias e longas

o Santo desespera por uma mão generosa

que traga para junto de si o Poeta

e seus lúcidos devaneios.

 

Passo junto à capelinha de Santo Adrião

e parece-me ver ainda no alpendre, deitado no empedrado,

o Poeta sonolento enrolado numa manta sobre uma cama de fetos.

O melro do costume virá despertá-lo às primeiras albas do dia.

 

Por agora, chega-me de mansinho, não sei de onde,

o som remoto e rouco de um rádio a pilhas.

É assim por vezes quando ali passo, a caminho de casa.

Não tenho dúvidas, é o Concerto para piano, n.º 21 de Mozart:

a placidez, a harmonia, o encantamento, quase dor.

Ali está o Poeta todo ele Humanidade, sob o halo da lua.

Absorvido, maravilhado, impregnado de uma inteligência comovida

que enternece.

 

Ali está o Poeta de pé diante da sua errância anuída,

tomado de uma ternura sem fim,

sem vaidade sem ódios nem rancores.

Ali está o Poeta insubmisso sapiente livre,

a defender da vida apenas o que da vida

é verdadeiramente defensável.

 

 

Lídia Borges (25/09/2025)