terça-feira, 19 de março de 2013

Dias do Pai


É uma coletânea de contos e crónicas com o título: Dias do Pai. Foi editada pela Editorial Ave Rara, em 2006, mas não conheço outro livro mais recente, em que um grupo de autores se tenha reunido para homenagear o pai.
Na contra-capa pode ler-se:
«Através da escrita magnífica de dezasseis prosadores portugueses contemporâneos quisemos, com esta edição homenagear os Pais [...] " Dias do Pai" - porque estes textos podem e devem ser lidos todos os dias de todas as semanas,de  todos os meses, de todos os anos...»
Entre os autores representados destaco Altino do Tojal, Cláudio Lima, Vergílio Alberto Vieira, Urbano Tavares Rodrigues, João Lobo e, como não podia deixar de ser, a mais "pequenina"  (21 anos, aquando da publicação) a encabeçar a lista, Alexandra Fernandes. E digo "não podia deixar de ser", tão só, porque se tratar da primeira das minhas duas filhas. A segunda, a Rita, (que também sabe escrever), dedica-se mais à engenharia biomédica, por agora.

Da Alexandra, transcrevo excertos do conto que ela criou em torno de uma personagem a que chama quase-pai, construída através da associação dos fragmentos físicos e psicológicos mais perfeitos  de pessoas reais, o que não chega naturalmente para a tornar um pai. A perfeição não existe, logo, um pai assim, só pode ser ficção. 
...comunicamos por símbolos que são só nossos, que apenas nós (eu?) conhecemos e onde não há lugar para mal entendidos ou complexos desencontros. Somos só um. Assim mesmo. Um só, como antes de eu ser. (2006:p.11)


[...]

Terá, sem dúvida, os olhos do João, amigo intemporal e sempre prezado. Uns olhos de um preto imenso, de pestanas intermináveis. São aqueles olhos que sabem sempre tudo de nós. E mesmo assim nos apoiam e, por isso, acreditam e afagam.
O nariz será o do professor de piano. Nariz aristocrático e imponente. Longo, aquilino, grego. Tal e qual o das pinturas e estátuas antigas que, com ponderação, espalha pela casa.
A boca é a do tio Zé. Pequena e suave, com orlas de sorrisos a desenhar palavras alegres e velozes. Curtas, precisas. A voz é necessariamente grave, mas meiga. O riso solto, mas tímido.
A tez terá a tonalidade exacta da dos marinheiros dos meus livros de aventuras. É de um moreno escuro e deleitoso, não dourado. Moreno de lutas com o sol e com o mar, infinitamente repetidas.
As orelhas serão pequenas (não demasiado pequenas), discretas e bonitas, com linhas bem definidas como nos manuais de desenho.
O cabelo grisalho. Liso, desembaraçado, mas não comprido. Apenas o suficiente para ser embalado pela brisa. Tal como o do dono do quiosque da minha aldeia.
As mãos grandes e brandas, capazes de carinhos incomparáveis. O corpo forte e altivo, como o de qualquer herói sem poderes. Apesar disso, será capaz de me proteger de perigos imediatos e de intimidar qualquer vilão.
O meu quase-pai está sempre bem-humorado e nunca se zanga seriamente. É uma  base estável e segura para se conhecer o mundo, do exterior do mundo. Presta-me ajuda quando preciso, bastando um hesitante olhar para que entenda tudo, como se lesse as entrelinhas da minha alma.
[...]

Penso, por vezes, se este quase-pai composto, poderá ser idêntico a qualquer pai-real simples, este último com menos qualidades e mais defeitos, (pelo simples motivo de não ser um combinado), mas com a incontestável superioridade de existir - de tocar, de cheirar, de ver, de saborear, de ouvir e de sentir...
O meu quase-pai!... Vejo-o como um reforço, uma vantagem, um desafio. Permite-me pensar melhor: Penso frequentemente a duas vozes, aprecio irrepreensivelmente prós e contras de cada situação. Posso ser mais radical, mais ousada, pois existe sempre uma voz de prudência e recato que me contesta.
E vou arredondando as minhas palavras e as minhas acções com o tempo e o costume. 

[...]
Alexandra Fernandes in Dias do Pai


11 comentários:

chica disse...

Linda foma de homenagear os papais, com um livro! Parabéns aos papais que aqui passarem! beijos,chica

Rogério G.V. Pereira disse...

Alexandra... sabes que esse quase-pai é quase o quase-pai que foi meu pai?

Belo, bonito e bem escrito. Eu até diria que procuro ser esse pai-quase-real que acabas de descrever...

JP disse...

Olá Lídia,
depois de ter hibernado um pouco cá estou de novo.

Neste dia especial.


Beijinho

Laços e Rendas de Nós disse...


Um "quase-pai", Pai!

Parabéns e um beijo

Laura

Mª João C.Martins disse...



Nenhuma ficção é totalmente inventada: penso eu! E acredito que este quase-pai, assim tão bem escrito e descrito pela Alexandra - a quem é que ela sairá a escrever assim? -, terá uma inspiração bem real. Mesmo porque quem tem "uma voz de prudência e recato" dentro de si, haverá de a ter colhido em algum lado. :-)

Um grande beijinho!

São disse...

Bonita esta homenagem...e a música também, mas tenho que ir antes que o computador se zangue.

Abraços, Lídia

Fê blue bird disse...

Um beijinho emocionado.

lis disse...

Enquanto leio penso no meu pai.E em quanto tempo perdemos sem dizer que nos amávamos.
Talvez todo filho precisasse de um 'quase pai',sua segunda voz para aprender com ele como conviver com o pai real.
Datas por si só já me deprime e se é dos Pais aumenta minha dor rs
Bonito e comovente texto.
um abraço Lídia

Rui Pascoal disse...

"Filha de peixe..."
Bem hajam ambas!

Flor de Jasmim disse...

Comovente Lídia!

beijinho e uma flor

Unknown disse...

Carlos Heitor Cony tem um livro chamado Quase memória no qual ele conta a sua relação com o pai: um quase pai da memória,




beijo