domingo, 22 de julho de 2018

Quando um dia poente...



Quando um dia poente
o sol abandonar o teu rosto
e a morte vier reclamar
o luar dos teus olhos,
[se vier, se puder que são insolúveis
as mães por dentro do amor],
hei de enfim
habitar o lugar
que a velhice me guarda, com desvelo.
Por enquanto, o tempo é devagar.

Serei menina,
contra todos os registos
na cédula de nascimento,
à espera que voltes
a entrançar-me o cabelo
a ajeitar-me o vestido,
antes de eu sair de casa,
como se para a escola.

Ao regressar
quererás saber que passos dei,
um por um, temendo por mim,
a hostilidade das pedras e dos ventos.
Não te direi que cresci, mãe.
Não te direi
que no fundo de mim
o tempo é já depressa,

não me vás tu de repente
começar a envelhecer.


(Imagem: Sandra Bierman) 



2 comentários:

Graça Pires disse...

"Quando um dia poente
o sol abandonar o teu rosto
e a morte vier reclamar
o luar dos teus olhos,"
Logo que comecei a ler este poema senti que ele me iria tocar muito. Obrigada, Lídia por seres, assim, maravilhosa.
Uma boa semana.
Um beijo.

Ibel disse...

Este fez-me chorar. Foi bom ter vindo.