segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Dito de cor

 


Às vezes, vestiam-me o vestido branco

da primeira comunhão.

Às vezes, o raminho de flores

em cima da arca no corredor

era sinal de que um anjinho morrera.

 

Íamos em grupos.

Quem tivesse mais rendas,

os laços mais engomados, 

as tranças mais bonitas, era escolhido

para levar os pendões macios

suspensos dos quatro cantos 

da pequena urna branca.

Depois davam-nos pão com marmelada

e às vezes sumos.

 

Regressávamos a nossas casas

a saltitar, como pardais alegres

quando os pés não doíam, claro,

dentro dos sapatos novos.

 

Quando eu era pequena morriam muitos anjinhos.

Não era nosso, não era daqui,

vai a caminho do céu – diziam as velhas.

 

Mas, quando a Cilinha morreu,

eu não quis pão com marmelada nem sumo

e os sapatos deviam magoar-me muito

porque não me lembro de querer brincar.

 

Porque a Cilinha não era um anjinho,

era uma menina como eu. Era daqui, como eu.

Era com ela que eu jogava às cinco pedrinhas,

à corda, à macaca…

 

Terá sido a primeira vez que vi

a morte sem máscara.

Feia, feia de arrepiar.


Lídia Borges (reeditado)