Às vezes, vestiam-me o vestido branco
da primeira comunhão.
Às vezes, o raminho de flores
em cima da arca no corredor
era sinal de que um anjinho morrera.
Íamos em grupos.
Quem tivesse mais rendas,
os laços mais engomados,
as tranças mais bonitas, era escolhido
para levar os pendões macios
suspensos dos quatro cantos
da pequena urna
branca.
Depois davam-nos pão com marmelada
e às vezes sumos.
Regressávamos a nossas casas
a saltitar, como pardais alegres
quando os pés não doíam, claro,
dentro dos
sapatos novos.
Quando eu era pequena morriam muitos
anjinhos.
Não era nosso, não era daqui,
vai a caminho do céu – diziam as
velhas.
Mas, quando a Cilinha morreu,
eu não quis pão com marmelada nem sumo
e os sapatos deviam magoar-me muito
porque não me lembro de querer brincar.
Porque a Cilinha não era um anjinho,
era uma menina como eu. Era daqui, como
eu.
Era com ela que eu jogava às cinco
pedrinhas,
à corda, à macaca…
Terá sido a primeira vez que vi
a morte sem máscara.
Feia, feia de arrepiar.
Lídia Borges (reeditado)
