segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Cardos


Este é o lugar onde só o lume
não demora a florir
onde o verão abdica
de ser metáfora para arder
até ao fim.


Eugénio de Andrade


sábado, 28 de agosto de 2010

Tristeza


Larga a minha mão tristeza
Não me leves contigo
Por esses atalhos escuros
Por esses cerros agrestes

Larga a minha mão tristeza
Não me seduzas assim
Mostrando a tua franqueza

Entregar-me dizer-te sim
Afundar-me no teu colo
Seria tão fácil para mim

Mas... Ainda não
É cedo tristeza
Vai-te embora
Larga a minha mão



Lídia Borges

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

histórias...


Tenho uma amiga que não gosta nada de acampar. É uma citadina inveterada e diz ter medo dos bichos. O certo é que, empurrada ou não, ela vai! E, quando volta, vem tomada de um deslumbramento tal que me confunde.

Este ano escolheu o Parque de Campismo de Travanca, no Gerês onde conheceu um sapo que a esperava todos os dias, num certo sítio que não vou aqui revelar. Falou-me dele pelo telefone, com um entusiasmo "arrepiado". Disse-lhe logo que era um Príncipe Encantado e ainda não tinha visto sequer esta fotografia que ela, depois, me deu. Um sapo “vulgaris” não "sorri" assim para a câmara.

Ah, fosse eu princesa e não lhe negaria o beijo da metamorfose. A menos que o príncipe já se tivesse deixado subjugar por este paraíso de lagoas mágicas, riachos que pulam de pedra em pedra, pequenas cascatas escorregando encosta abaixo, cavalos selvagens pastando nos vales, o verde, o voo livre das aves, as espécies botânicas cuja existência só se verifica nesta serra...

Não há sapo, príncipe, princesa ou simples visitante que não se deixe enfeitiçar por esta obra divina de arquitectura natural.



E tudo isto porque a Mónica resolveu presentear-me com uma bela série de fotografias (tiradas mesmo antes dos incêndios), das quais mostro estas. (Ela deixou).

Obrigada Mónica!




terça-feira, 24 de agosto de 2010

Tempo(s)


O passado é o lugar onde um dia estivemos e do qual fomos expulsos pela pressa do tempo.
O futuro é um banco de pedra na berma da estrada onde nos sentaremos cansados da saudade do presente.
O presente?... O presente é nada!

sábado, 21 de agosto de 2010

Mãos


Para que o coração se dê à distância
Falta-te só um pedaço de silêncio
No rumor lento da solidão.

Não deixes que se cale a música
Na raiz dos sonhos
Não seja ela ausência vã
A dilacerar
O solfejo das aves
E os acordes dos regatos
A disseminar
O pó luzente das estrelas
Sob os pés de um tempo cego.

Vê como florescem as mãos
Assim abertas ao sol da manhã
Como as folhas verdejam
A partir dos dedos enlevados.

As mãos ainda não sabem
Da morte da Primavera

Solidário
O sol insiste em lhes sorrir.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Havia música


Havia música e a neblina cinza e fria
a deambular nas ruas
das noites junto ao mar.
Havia a luz branda inclinada sobre os passeios
e um sopro de anjos nas costas da razão.
Esperavas-me.
O tempo tinha então muito tempo
Leve como asas, borboleta, ilusão
Havia o calor do teu corpo
e as palavras sussurradas
aos ouvidos da noite.
Havia um verão guardado
na algibeira da eternidade
que nos parecia deveras eterna…

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O “meu” Gerês


O “meu” Gerês acinzenta-se, vai perdendo a magnificência do verde às mãos insaciáveis das chamas que lavram, há uma semana… E eu não tenho meios capazes de combater esta ferida que se me acendeu no peito a arder, a arder…

A minha gratidão aos Soldados da Paz (incansáveis) que combatem os incêndios por esse país fora.

sábado, 14 de agosto de 2010

Agora
parece-me uma tarefa
impossível
encontrar a coerência
de um corpo para dar às palavras
que guardo na alma.

Tenho-as todas enclausuradas
em gaiolas
Como pássaros, outrora livres.
Curiosamente,
quem sucumbe à dor do silêncio
não são elas. Sou eu!

Deixo escorrer a noite
pela melancolia das mãos
Tão sós, tão incapazes…

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Verão


De repente, um sobressalto da folhagem fez-me levantar os olhos do livro. Esperei observando o local donde o ruído viera.
De novo, as folhas estrebucharam e um melro veio pousar, descaradamente, num ramo da pereira sob a qual eu lia e, mesmo ali, alheio à minha presença, deliciou-se com bicadas sucessivas numa pêra madura e suculenta. Por uma ou outra vez espreitou-me atento mas nunca chegou a considerar-me uma ameaça, pois que prosseguiu no seu apreciável repasto lento e guloso como se tivesse sido convidado.
- Bom apetite! – Limitei-me a desejar.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Entrei no café com um rio na algibeira

Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
-onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.

José Gomes Ferreira

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Esta tarde


Esta tarde a luz de um poema
surpreendeu-me quando pousava em ti
meus vagos pensamentos
Insinuou-se sob o signo do Amor
nas sílabas ainda verdes dos versos
atravessou uma nuvem de poeira luzente
Que se fazia fronteira
E derramou-se, como um rio
numa folha branca de papel.

Deixei o meu coração na margem
Esperando que resista à chama
Que o poema veio atear.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Hora


O relógio não mostra ainda aquela hora crepuscular que tudo confunde: o dia mistura-se com a noite ou a noite com o dia, o sentido habitual das coisas dispersa-se na incerteza das luzes, na imprecisão dos contornos, no desnorte dos desejos…
Mas não é essa hora indeterminada que agora me detém.
O que me inquieta é a falta de cor, a ausência de brilho nas linhas que cosem este pôr-do-sonho triste como o cair desamparado de uma ave ferida sobre o lajedo.
Ouço já, distintamente, o bater descontrolado das asas e o gemido de dor antes do baque cruel a marcar o fim do último voo. E depois… Só um silêncio nu e frio!

domingo, 1 de agosto de 2010

Praia


No alvorecer branco desta varanda cheia de mar
busco a água e o sal em mapas no corpo da infância
quando os risos eram conchas abertas
a habitarem os meus castelos de areia
que desafiavam a grandeza das ondas.

Mais tarde…
Eram os barcos que enxergava da praia,
sempre distantes e inacessíveis
como sonhos que partiam sem mim.
Sobre a areia era o sol derramado
e a língua morna do vento
a lamber os nossos corpos molhados.
Era a pedra cinzelada pelo vai e vem do tempo
Sem nada saber do tempo,
tão lisa e inócua como eu.

E depois, depois...
O mergulho na gruta labiríntica, sem fio de Ariadne,
arquitectada por uma inquietação permanente,
um medo indecifrável , sem nome
a apontar-me o fracasso, o fim antes de tudo
O fim desumano muito antes do fim.

Hoje é ainda a complacência do mar
dispersa nos vagares desta maré vaza
a falar-me da raiz nociva de outras marés
e de velhos sonhos naufragados,
barcos engolidos por temporais com fome.

Sorrio ao ver tantos barcos ainda no cais.
Alguns realizaram grandes viagens
debaixo de ameaças e assombrações
mantendo-se sempre à superfície
na liquidez das águas,
no balancear de ventos benévolos...

Como estes que, agora, me prometem a paz
no perfume suave do momento.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

O menino que escrevia versos


De que vale ter voz se só quando não falo é que me entendem?
De que vale acordar se o que vivo é menos do que o que sonhei?

(Versos do menino que fazia versos)

- Ele escreve versos!
Apontou o filho como quem entrega um criminoso na esquadra. (…)
- Há antecedentes na família?
- Desculpe, doutor?
(…) Dona Serafina respondeu que não.
(…)
- Dói-te alguma coisa?
- Dói-me a vida, doutor.
O doutor suspendeu a escrita (...)
- E o que fazes quando te assaltam essas dores?
- O que melhor sei fazer, excelência.
- E o que é?
- É sonhar.

…
Na semana seguinte foram os últimos a ser atendidos. (…)
O médico, sisudo taciturneou: o miúdo não teria por acaso mais versos? O menino não entendeu.
- Não continuas a escrever?
- Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho este pedaço de vida – disse apontando um novo caderninho – quase a meio.
O médico chamou a mãe, à parte. Que aquilo era mais grave do que se poderia pensar. O menino carecia de internamento urgente.
- Não temos dinheiro – fungou a mãe entre soluços.
- Não importa – respondeu o doutor.
…
Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico.
(…) ele se senta num recanto do quarto onde o menino está internado. Quem passa no corredor pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que, verso a verso, vai lendo o seu próprio coração. E o médico abreviando silêncios:
- Não pare, meu filho, continue lendo…

Mia Couto, (2004), in O Fio das Missangas, Editorial Caminho, SA

segunda-feira, 26 de julho de 2010


Chegas e eu fico suspensa nos gestos interrompidos.
A tua presença irrompe como nenúfar à superfície de um silêncio liquefeito.
Demora-te. Demora-te, assim…
Faz-me pensar que não é urgente albergar o níveo gelo no espaço vazio entre as minhas mãos.

sábado, 24 de julho de 2010

A recusa das imagens evidentes

[...]
II

Girassol que na retina
Da planície se dissolve.
És a cor mais repentina
Da aragem que te envolve.

Girassol que só te viras
Ao que não te fica perto
E só giras porque giras
Sobre o teu eixo secreto.
.
Girassol que sem volume
Volume que sem contorno
No despegar-se resume
Só a pressa do retorno.
[...]

Natália Correia
Poesia Completa, (1999), Publicações Dom Quixote

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Dança


Às vezes, ao cair da noite,
as palavras vêm dançar, nuas, ao luar…

Digo ÁGUA e as fontes cantam transparências nos meus dedos molhados.

O SILÊNCIO traz na pele um verde sereno e dança sempre em pontas para não fazer ruído.

A LUZ vem, indizível, no olhar de uma CRIANÇA que joga às pedrinhas com as minhas emoções. São emoções felizes, essas que saltitam, seguras, naquelas mãos pequeninas.

O SONHO, leve e dócil, oferece-me asas para voar e desejos para eu navegar, à deriva.

A VIDA? Procuro a vida. Será que não veio dançar? Digo VIDA e sou ar, árvore e flor, poente e madrugada. Sou tempestade e bonança; desilusão, esperança; choro, riso, rio a passar.

AMOR. Digo amor e sorvo da tua boca o oiro todo do mel… E repito: AMOR porque ainda tenho segredos à flor do querer para pôr no teu ouvido e te fazer sorrir.
Insisto ainda no AMOR, um milhão de vezes: AMOR! E tantas serão tão poucas porque sempre haverá rancor a transbordar dum olhar, uma arma numa mão escondida e um grito de dor sufocado, uma pedra no lugar de um coração. Sempre haverá quem, ao AMOR, diga: NÃO!

PÃO, digo agora PÃO e repito: PÃO!… E por mais que diga PÃO, eu sei que nunca chegará a todas as bocas famintas.
Escureço! A lua vai embora e, sem luar, não há palavra que queira dançar.

Apenas o SONHO me aconchega em seu abraço!
Mar!… Barco!… Azul!… Ilha! …
Cansaço!

terça-feira, 20 de julho de 2010

Quando o tempo refresca


Quando o tempo refresca, assim,
o Verão suspende a sua euforia
e fica sentado, à espera...

Todas as coisas parecem repousar na sombra:
os pássaros ficam mais lentos,
os frutos descuram o seu crescimento,
a aranha imobiliza-se na teia
e até o silêncio tem um dormir mais profundo.

Fico então perto de tudo,
irmanada na acalmia inesperada
do meu pequenino mundo.
E, quando olho,
outros olhos me olham,
livres da intensidade do sol que cega.
Descubro que sou Outono e…
Como gosto!

domingo, 18 de julho de 2010

Um raio de sol


Guardo no meu bolso
um raio de sol

Hei-de usá-lo
quando vier o Outono
para amadurecer o silêncio
que levará o poema

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Versos


Ainda me não despi
Não falei toda a verdade
Como falso poeta menti
Manobrei a realidade
Em tudo quanto escrevi

Quando penso entregar-me
Nas mãos de um qualquer poema
Uso vestes de pudor
Que ocultam o que sinto
Que encobrem minha dor

Nunca um poema adulterado
Tocará a alma de alguém
É um canto amedrontado
Que não cativa ninguém

E de mentira em mentira,
Minha escrita vai fluindo
No ar fica o embaraço
Deste jeito com que minto