quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Poema 22



Voltejam
em redor do tanque,
fazem estremecer a pele da água
em círculos,
andorinhas primeiro e logo depois
conceções a branco e negro,
volúveis.
É comum haver dentro dos poemas
seres a transmutar-se
vertiginosamente diante da perplexidade
do olhar, mas o mais desconcertante
é ainda o mistério do enlace
entre a liberdade do voo
e a celebração da palavra.
Dói-me a minha ausência
no hiato inabordável
onde o poema acontece.

As andorinhas voltejam, é certo,
e nem uma ponta de romantismo
há nesse ato de voltejar,
apenas o peso na memória
da sua exterioridade excessiva
sedimento improvável da fala.
Reais até à alucinação do verso
que se não deixa colher
e todavia,

infinita, a Poesia.


Lídia Borges (2019:p. 37), Garças, Poética Edições.