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sábado, 8 de agosto de 2020

(Da) Incerteza



Há de chegar

aonde o olhar se perde,

nos longes íngremes da Incerteza,

 

a espera

 

é tudo o que esperamos de nossos braços

[exaustos]

na curva embrumada dos tempos.

É tudo o que esperamos,

 

a espera.

 

Água que em recantados sobressaltos

nos corre por dentro

de veia em veia, de pedra em pedra,

de susto em susto,

de palavra em palavra

até à completa ausência do som.

 

Há de chegar.

E no corpo que der à Incerteza

os ecos proeminentes da dor de nada sabermos...

de nada.


Lídia Borges


(Imagem: pesquisa Google, Luís Miguel)



 

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Quando a noite tomba


Quando a noite tomba, são mais velozes os rios
que passam aos nossos pés.
E as mãos doridas
Intentam redesenhar os seus trajectos originais
No amanho incessante das margens.

O sal liquefeito na boca é barro, cal, líquen, aversão
Gela-se na prata abrasiva da água que transborda
Das calhas silenciosas da noite.

Esta luz ténue, ao longe, é já o bocejo do amanhecer
Ou uma miragem, apenas?

Lídia Borges

terça-feira, 12 de abril de 2011

Excesso


Já nada falta no incêndio da hora
Tudo é excesso, lixo
vozes inúteis, acesas, fúteis
Imperfeição, dispersão, folclore
A palavra dança em transe, louca
É tanta. Tomara-a pouca.
Não me falem do mar, da espuma
dos barcos à minha porta
Não me ditem fervores
Louvores ou desamores
Frugais são agora os intentos de luar
Para me resgatar
A ordem é expirar
Nas cidades, na ira, no lamento
Irreversivelmente, isento
surdo, cego e mudo
no cerne do desassossego…
Rastilho ardente, fervente
Absinto…
S
I
N
T
O
...
Lídia Borges

terça-feira, 29 de março de 2011

Malmequer


Desfolho versos, folha a folha
letra a letra
Mal-me-quer, bem-me-quer
Bem-me-quer, mal-me-quer
Se me queres, mal-te-quero
Se te quero, pouco-me-queres
Versos assim desfolhados
Que poema os há-de querer?

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011


Hoje não me oiço, não me falo
E do fundo deste tom soturno de mim
Assisto a um terrífico bailado
De algas agrestes
Quebrando corais

Lídia Borges

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Corria atrás do vento


Corria atrás do vento
Como louco ou herói
Esbracejava e gritava
De boca escancarada
Para engolir o vendaval

Acreditava que tendo um vendaval
Na barriga
Derrubaria fomes e dores
Injustiças desamores

Corria atrás do vento
Na ilusão absurda de o domar.

Correu horas meses anos sem conta
Contra a dureza do chão
Contra o (des)acontecer
Sucumbiu por fim
Na apreensão da cor
De um certo entardecer

Só então compreendeu

Cada um tem apenas para dar
Uma mão estendida
Que outro irá segurar

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Perde-se no ar o verde


Perde-se no ar o verde
que os olhos não vêem
e a memória expele
para o mais obscuro
recanto
O verde que os pássaros feridos
granjeiam ao abandono no vento

Perde-se o verde sonhado dos sonhos
no rumor sombrio da floresta
dos desenganos
Nos enganos dos espelhos
invisíveis
que oscilam à flor da pele
de uma tarde gélida de Outono