sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Pensatempo


 LÍDIA BORGES, in DESARRUMOS (2025)

PENSATEMPO
Revolvendo a terra ainda morna, fértil,
mãos desveladas
cingem o milagre das coisas inomináveis.
Sobem ao adro do encantamento
e proferem a palavra "oferta".
Comovidos, colhemos a generosidade dos solos
e a gratidão faz-se, de súbito, eco da alma.
(Da alma, sim. Pode ela até nem possuir um corpo,
mas voz... essa, eu sei que vive,
pois que a oiço, nitidamente.)
Cheira bem
e o outono ainda nem sequer me falou
de cogumelos.
O aroma deve vir do alecrim, das maçãs, dos figos,
sei lá,
da cantoria dos pássaros,
trebelhando, de ramo em ramo,
no meu pensatempo.
*
Óleo sobre tela: A Girl Writing, de Henriette Browne

Publicação "roubada" da Página https://www.facebook.com/quem.le.sophia.de.mello.breyner.andresen assinada por Lília Tavares e Carlos Campos.


domingo, 20 de setembro de 2026

Setembro és tu


I 


Setembro és tu.

A nostalgia amena de um entardecer,

uma dor indiscreta que cresce,

entre a paisagem e o coração,

o mistério alvo de uma vela

a tanger o horizonte,

 

uma estrada de prata no mar,

um rebanho de estrelas

pastando na aridez quase alegre 

da noite.

 

Tu és setembro.

A luz filtrada nos braços vazios

de uma despedida, agora.

Um alvorecer de ecos amarelecido

como fotografias antigas.

 

II

Tu és setembro, enigma e revelação.

Despedes-te em cada silêncio

sem saberes de quê,

de quem te despedes.

E trauteias incompreensíveis cantos

como se acabado de chegar.

 

São tuas paisagens

a dor e o deslumbramento.

Um tempo esgotado que partiu,

deixando a porta trancada

e, dentro, todas as luzes acesas.

 

Lídia Borges (20/09/2026)



domingo, 13 de setembro de 2026

À distância de um braço

 


Tens contigo matéria que serve ao poema.

Está à distância de um braço:

astros e detritos. De que lado acordaste?

 

Nada disso sacrificas ao formato do poema.

Nem sequer o doce de figo 

a fervilhar lentamente na cozinha,

irradiando aromas frutados pela casa,

 

Ecos ocos, ócio obsceno e a morte algures

a lavrar, a lavrar...

Não te chama, a Poesia!

O poema exige mais coração, mais veia, mais alma e pulso.

É de azedia e socos no estômago, a escuma dos dias.

 e o poema azeda.

 

A compota de figo está no ponto.

Último ponto: deixar arrefecer e enfrascar.


Um frasco de doce pode ser bastante

para encher o poema

que necessita escapar à conservação em vácuo.



Lídia Borges (reescrito/revivido)



sexta-feira, 4 de setembro de 2026

De "No Espanto das Mãos - o Verbo" (2011)


 Reminiscências


Revolvo reminiscências

enquadradas em imagens mate

na gaveta das relíquias.

Ganham corpo, crescem desmesuradamente,

entre os cansaços do entardecer.

Tomam tudo em redor.


Fico vazia de mim a mensurar distâncias

a desligar estrelas para moldar a noite

porque o respirar magoa à luz ardente das mãos


Quando ela chega - a noite - escura e dócil

escorrendo pela esquadria sóbria da janela

pergunto-lhe: sabes resolver enigmas?

É necessário redimensionar sentires,

comprimi-los, reduzi-los ao seu tamanho real

atá-los com fitas de veludo, em cruz

a confluírem num laço bem apertado

para que caibam de novo na pequena gaveta

onde os havia guardado.


Lídia Borges (pág.32)

Pintura: óleo sobre tela, (70cmX50cm) de minha autoria




sábado, 29 de agosto de 2026

Desconcerto para violino e flauta

 


Um raminho de sol preso ao canto da janela

Uma folha irradiando o verde

Uma abelha, o mel, a flor

Altos relevos, ponto cheio. Cheiro, cor.

 

Toalha de linho bordada com fios ténuos de luz

E pássaros em trovas antigas

Entoadas a ponto de cruz.

 

A manhã, um desejo em flor, um violino, uma flauta

Assim

Como se nas pétalas de um prelúdio

Não se pudesse respirar  um assopro de fim.

 

Como se não crescessem

As portas fechadas a meio dos corredores

Como se dos muros não sobrasse a sombra

Ressurgida de velhos e podres bolores.

 

Um violino, um desejo, uma flauta 

E a aragem de abril a esvoaçar

Nas linhas de consertar disforias de uma pauta.


Lídia Borges (reeditado)

imagem: Eduardo Lima

 

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Desusos

                            Ilustração -  Eugene Ivanov


O poeta  A usa a Poesia

como arranjo floral,

feto, folha, pétala…

É florista,

comercializa palavras, em bouquet.

 

O poeta B usa os joelhos

para compor poemas vadios

com odor a absinto e a ópio,

narcóticos para alívio rápido

de euforias passageiras.

 

O poeta C sabe da poda

usa tesouras audazes

para obter um pergaminho

palimpsestado à pressa.

 

 A Poesia pede aos poetas

A, B e C

Que não a usem.

 

Especialmente para fins prosaicos 

e outros devaneios.

 

Lídia Borges (inédito)




domingo, 23 de agosto de 2026

Que os deuses se danem


 

I

Iguais em demasia

para tanta diferença em nós.

Andámos depressa demais.

Corremos tanto

que acabámos por crescer

além das idades

onde o finito entoa afinado

o canto do cisne.

 

II

 

Proponho-te que deixemos de ouvir.

Ouves? Deixemos de ouvir o som do transitório.

Proponho-te casamento, outra vez. Aceitas?

Não. Esquece o papel assinado. Foi há muito arquivado.

Proponho-te um casamento outro 

além do dever,

além de todos os preceitos artificiais,

além da paixão ardente,

da beleza (é fácil amar o que é belo),

dos dias de desejo, de entrega, de feitiço

de sonho, de primavera.

 

Proponho-te que espicacemos o destino,

(que se danem os deuses)

que ames as minhas cicatrizes,

as sombras dos dias tristes no meu rosto

e a água de todas as lágrimas, em meus olhos.

Amarei teus defeitos que demorei a perfilhar

tonta de tanta perfeição criada em ti por minhas mãos.

Amemo-nos como se nunca tivéssemos

sido escravos da Fantasia e da Ilusão.

 

Proponho-te acarinharmos a certeza de sermos ainda.

Proponho-te rirmo-nos de nossos trôpegos sentires

de nossos suaves pensamentos,

de nossos passos rasos,

de nossos gestos de ternura eterna.

 

E se vierem falar-nos de loucura,

diremos que decidimos amarmo-nos, 

sem fim.

 

Que os deuses se danem!


Lídia Borges (23/08/2026)


sexta-feira, 14 de agosto de 2026



Foto tm. (13/08/2026)


 E, de súbito, uma praceta de hoje vem lembrar-me "a voltinha depois do jantar para ver as montras", pela mão da minha avó. Uma atmosfera qualquer a chamar-me ao passado e eu... aqui.


Lídia Borges

domingo, 9 de agosto de 2026

Apontamentos


1. 

Em que língua falarei eu de Poesia? Azul-celeste, antracite, cor de morango, de limão? Ouvi dizer que a Poesia fala todas as línguas do coração. Silêncio, por favor. Escuto o coração. Só um ritmo cadenciado, sem letra, me chega. Uma melodia repetida como água a correr: a mesma água de sempre, o mesmo leito, a mesma língua.

Por vezes, de um velho barco nas margens anónimas dessa água que corre, parece-me vislumbrar, entre a névoa da manhã, códigos de uma outra língua que desconheço. Por vezes, um velho barco de viagens antigas, longínquas.  Por vezes, um veleiro em mar aberto, desenhando formas incolores no horizonte. Por vezes, água apenas, desafiando os ventos. Por vezes, tantas vezes, sede.

Dir-me-ão irmã do fingimento, do inexpressível, do intocável. Talvez. Mas nunca do engano. A viagem faz-se sobre as vagas inconstantes da imaginação e assim vivo o poema que vou desdobrando, desbravando, espiando, revelando, dizendo sem afirmar, propondo sem audácias de injunção. Enganar, não! É antes alvitrar o caminho do Sonho, esperando que o leitor encontre em suas gavetas interiores, uma chave só sua que o abra.

 

2.

A Poesia não é aquela amiga passiva, íntima sempre disponível para acolher embaraços e desabafos. Não, não tentem reduzi-la à gelosia de um confessionário. Seria um erro grosseiro. Ela não tem afinidades com o fácil. É quase sempre esquiva, no instante em que a desejamos. Quantas vezes toco ligeiramente a aba do seu vestido de anémonas e madrepérola e a vejo derramar-se subitamente, como um castelo de areia, nos subúrbios das marés, negando-me a exaltação do mistério, a surpresa, a maravilha. As palavras  que prometiam claridade e pacificação, perdem, forma e consistência e retiram-se sem cerimónia, deixando atrás de si um rastro de letras imperfeitas que, ao atrasarem-se, tornam possível a sua captura, por nossas mãos amistosas. Damos-lhes colo, então, acarinhámo-las, adotámo-las antes que a ligeireza do habitualismo venha varrer o que restou da epifania.


Lídia Borges (12/06/2026)



sexta-feira, 24 de julho de 2026

Livro sobre Nada - Manoel de Barros




9.

 A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um 

sabiá

mas não pode medir seus encantos.

A ciência não pode calcular quantos cavalos de força

existem

nos encantos de um sabiá.


Quem acumula muita informação perde o condão de

adivinhar: divinare.


Os sabiás divinam. 


Manoel de Barros ( 2016:p.322), Poesia Completa, Relógio D´Água.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

A persistência do espanto

  

I

Longe da catástrofe do mundo

há flores que continuam a abrir

pássaros que continuam a cantar

afinados como sempre cantaram

ribeiros que reescrevem,

dia a dia, hora a hora,

poemas em pautas de pedra e limos.

Crianças continuam a nascer pelo dia fora,

madrugada adentro.

 

O ventre das mães é um mundo inchado 

redondo de dor e de exaltação,

uma súbita opulência que é também dos pobres.


II 

O pequenito acorda

e descalço atravessa o corredor da casa

sem entender o despropósito da hora.

Choroso, requer o colo da mãe,

mas a hora no momento é do outro filho,

o que tenta rasgar a escuridão

rumo à luz primeira da vida, 

rumo à luz dos olhos da mãe

rasos de comoção  e de alegria.


Longe da catástrofe do mundo,

a persistência do espanto.


Lídia Borges



quarta-feira, 22 de julho de 2026

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Folhas de gladíolos

 


Não têm civilidade nem beleza.

Atropelam-se, as palavras,

contradizem-se, desdizem-se, agridem-se,

atraem-se, repudiam-se,

juram, negam, batem-se, beijam-se.

Usam espadas, não folhas de gladíolos.

Estão por nós? Contra nós?

 

São como gladiadores em novíssimos Coliseus

de onde a coragem e a glória se evadiram,

ficando somente o pão e o circo

como alimento de tolos muito inteligentes.


Lídia Borges



segunda-feira, 13 de julho de 2026

Se...

 


Se casualmente, entre as pessoas,

distinguires olhares que se cruzam como os nossos,

alegra-te. 

Demos-lhes espaço e tempo para crescer,

deixemos que se reconheçam verdadeiros e iguais,

que prenunciem sem palavras

o que máquina alguma jamais poderá pronunciar.


Lídia Borges

sábado, 4 de julho de 2026

Em flor (À conversa com Maria Ondina Braga)

 

"Os dias de verão são sem nenhuma piedade. O sol abre cedo, penetra as persianas meio cerradas, aquece as paredes, aflige homens e bichos, queima as plantas melindrosas. Na rua, nas lojas, no metro, as pessoas transpiram, resmungam, olham-se com desgosto. Há uma infelicidade própria dos dias de verão na cidade."



Maria Ondina Braga, in A personagem.

Obras completas de Maria Ondina Braga - Rom_,ances,

Imprensa Nacional – Casa da Moeda (2026:p.109)

 


Há uma infelicidade própria

dos dias de verão na cidade

É uma letargia que alastra, morrente

por dentro de homens e bichos.

Abandonadas à fúria do astro-rei

estiolam as casas.

No seu interior a obscuridade,

manta de frescura que aconchega.

É neste remanso onde

senhora de mim me vejo,

sem marcas nem desassombros,

que voltas a acontecer-me.

 

E de novo, com tintas de bem-querer, te pinto

sem pressas, preceitos ou enganos.

Enchem-se as entrelinhas deste tempo parado

de palavras cálidas, lembranças futuras de hoje

que reescrevo tranquilamente,

à margem de ventos e ecos outonais.

 

O teu sorriso (saberás ainda sorrir?)

transforma em pó a distância 

incapaz de nos fazer mal.

É verão, não vês?

Há muito tempo agora para regar

as solidões em flor nos vasos das varandas,

à noitinha de preferência

quando a canícula esmorecer,

sangrando no horizonte.


Lídia Borges 


(imagem daqui )





sexta-feira, 26 de junho de 2026

As árvores que me rodeiam


 Elas


Elas vieram devagar,
um braço que se alonga, outro,
uma mão de dedos finos, vegetais.
Abeiraram-se das janelas
abusivamente
[se um advérbio me é consentido].

Tão perto ficaram que é possível
captar-lhes o ritmo da respiração
mesmo com os vidros fechados.

Deliram.
Exibem gorjeios com impudicas vaidades.

A magnólia a figueira a ameixoeira?
Qual a preferida
dos pássaros que gorjeiam?

As árvores deliram.
Elas mantêm o sol preso
no rendilhado da folhagem.
Elas são as cortinas, verde sombra
das minhas janelas de verão.


Como se pode ver, não possuo
de momento
nenhuma ideia luminosa
sobre o mundo.

***

Lídia Borges

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Le Déserteur

 


Senhor Presidente,
Escrevo-lhe uma carta,
Que o senhor talvez leia
Se tiver tempo.
Acabo de receber
Os meus papéis militares
Para partir para a guerra
Antes de quarta-feira à noite. 
Senhor Presidente,
Não quero ir,
Não estou na Terra
Para matar a pobre gente.
Não é para o ofender,
Tenho que lhe dizer:
A minha decisão está tomada,
Eu vou desertar.
Desde que nasci
Vi a minha mãe sofrer,
Vi os meus irmãos partirem,
Vi os meus filhos chorarem.
A minha mãe morreu de tanto sofrer,
Os meus já não falam de mim
E os meus filhos foram embora.
A minha vida foi arruinada.
Amanhã de manhã
Fecharei a minha porta
Na cara dos anos mortos.
Eu irei para as estradas,
Vou mendigar
Pelas estradas da França,
Da Bretanha à Provença,
E direi às pessoas:
Recusem-se a obedecer,
Recusem-se a fazer a guerra,
Recusem-se a partir.
Se for preciso derramar sangue,
Derramem o vosso,
O senhor é um bom apóstolo,
Senhor Presidente.
Se me vierem procurar,
Avisarei os seus guardas
Que não levarei armas
E que eles podem disparar.