sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Quase sempre, as aves...

Imagem net s/ indic. de autoria

Fala-me do quase sempre das aves
De como elas rompem o silêncio
Rogério 
(Conversa Avinagrada)


Primeiro é preciso que o coração
tenha a forma aproximada de um ninho
que o pensamento seja maduro e forte
como os ramos da árvore do mundo.

Depois, com todos os sentidos em vigília,
discernir  como elas rompem o silêncio.
Entrar no seu idioma e ler a mensagem
que trazem presa nos bicos desde o azul celeste
É preciso absorvê-la até que nos seja leveza e emancipação,
símbolo vivo de uma liberdade a levedar.

O “peso” terrestre,
o fascínio mortal exercido pela serpente,
rente ao solo, não pertencem a este poema,
convém dizê-lo.

Aqui, as aves falam de cumplicidade,
do divino e do terrestre,
da aliança entre deuses e homens
numa linguagem inteligível por reis e plebeus.
Falam dos grãos de pão meticulosamente
repartidos, do vinho e da sua alegria contagiante,
da seiva acesa que alimenta sonhos, intentos e  utopias.


Tudo estaria tão certo não fosse, hoje, uma ave 
vinda de um velho alfarrábio me afirmar friamente
que os deuses estão mortos
e o céu não existe para além do nada.

Contudo...
Desde quando se pode confiar no cacarejo árido
de uma galinha? 




20 comentários:

Catarina disse...

: )

Sim quem pode confiar nesse cacarejo...
Bjos

Lilá(s) disse...

Um espanto este poema!
E a pintura escolhida é igualmente bela.
Bom fim-de-semana
Bjs

Rogério G.V. Pereira disse...

Como é possível, dizer-se
Num poema
Quase tudo
Sendo o quase que lhe falta
É quase nada

...e é claro que a comoção
me tocou a asa

chica disse...

Essa é mais uma pra pensar.LINDA!! Tua interação está lá! Obrigadão! beijos praianos,chica

Maria Rodrigues disse...

Não podemos deixar que uma ave qualquer acabe com os nossos sonhos, em momentos dificeis e de dor, há que continuar a acreditar que o amanhã será melhor que o hoje.
Belissimo poema.
Beijinhos
Maria

O COELHO DE DÉBORAH disse...

Lídia,

boas tardes!

Vi o girassol acima do meu comentário no Blogue delicadezas de Nydia B.. Cliquei e abriu-se a canção... Bem, sou português e claro, fiquei comovido, mexido, encantado.
Moro no Brasil, mas viajo pelos blogues e agora acho que virei aqui mais vezes, para ler-te ou simplesmente, ouvir música.

Seu poema tem a cadência de uma fala dita com toda a emoção, deu-me a impressão de ser um poema que dizes de voz alta, que é para toda a gente ouvir.

Muita qualidade por aqui.

Beijinho.
C.C.

Armando Sena disse...

Um belo jogo de palavras, de imagens, com um final desconcertante.
Adorei.

Maria disse...

Desconcertante...
A galinha, é claro.
;)

Beijo.

Sonhadora (Rosa Maria) disse...

Minha querida

Não podemos e não devemos deixar que uma ave qualquer nos tire a liberdade de ser e estar.
um poema que tudo o que eu diga não é nada comparado com a imensidão de verdades.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

Nilson Barcelli disse...

Há aves que falam assim...
E há quem faça excelente poesia, como tu...
Gostei muito, mesmo muito.
Lídia, tem um bom resto de domingo e uma boa semana.
Beijo.

Penélope disse...

Há que se ficar esperta com aqueles que andam para trás, sempre às espreitas e ter a coragem de alçar voos maiores, masi altos e rápidos do que as aves.
Saudades daqui, mas falta-me tempo para visitar todos os amigos queridos!!! Um pouquinho de cada vez, Lídia!!!

JP disse...

Olá Lídia,
Fiquei logo preso nos dois primeiros versos deste teu lindo poema.

"Primeiro é preciso que o coração
tenha a forma de um ninho"...lindo, Lídia.

Depois lembra-te sempre que, tal como as aves somos livres de voar...

Beijinho

GizeldaNog disse...

Querida Lídia... você é uma poetisa ímpar, original e brilhante.As palavras podem ser as mesmas, aliás, sempre são, mas a sensibilidade e beleza com que você as usa é só sua.
(a propósito do seu comentário no Desassossego).

beijo.
Não comentar não significa ausência, muito pelo contrário , significa admiração.

Daniel C.da Silva disse...

...e porém, como diria Shakespeare, ha mais coisas entre o céu e a terra do que na tua filosofia...

Gostei muito das nuances introduzidas...

Mª João C.Martins disse...


Por cada ave de asas coladas, há outras mil a voar.
Para quê dar ouvidos a cacarejos, quando se conhece a bela melodia do vento?

Beijinhos

Mar Arável disse...

Na verdade há aves que não voam

Bjs

Luis Eustáquio Soares disse...

aqui o poema é nascedouro de horizontes no rés-do-chão das sementeiras, estrelando-nos.
b
l

Unknown disse...

há que se interrogar o canto
no mesmo gesto de espanto



beijo

Teté M. Jorge disse...

Que graciosos versos... belo poema...

Beijos e flores.

Graça Sampaio disse...

Pobres galinhas! Por vezes podem ser mais sinceras e francas que muita ave canora...